domingo, 13 de abril de 2014

Era uma vez, outra vez.

Era uma sexta-feira à noite, estávamos parados de lados opostos da calçada esperando o regresso de um casal amigo nosso, o silêncio já estava tornando-se constrangedor. Ele repara pela primeira vez que meu cabelo está muito diferente desde a última vez que nós nos vimos, faz uma comparação saudosista, ainda que tímida, de quando eu estava com ele todo bagunçado em uma apresentação da escola.
Por todo o caminho no carro, trocamos apenas amenidades, falamos da dificuldade de nos tornarmos adultos, relembramos apenas situações não muito profundas, tudo muito casual e raso.
Então ele se senta estrategicamente perto o suficiente para que pequenos toques aconteçam. Assistimos o casal da mesa brigar por pequenas coisas e, entre minhas risadas, encontro o olhar dele e lhe pergunto implicitamente se teríamos acabado assim, então ganho como retorno um daqueles sorrisos enigmáticos que mais me enchem de perguntas do que me dão uma resposta.
A conversa de bar acaba virando o nosso típico “café filosófico” e, enquanto debatemos fervorosamente as nossas ideologias à mesa, ele se mantém quieto com aquela indiferença levemente falsificada.
Quando a banda começa a tocar, ele me escuta gritar as músicas como nunca vira antes. É difícil ver em mim a garota que eu era aos dezessete, aquela que está na frente dele é alguém que está sentindo o calor do momento, cantando, dançando, vivendo. Vejo quando ele desvia o olhar, claramente envergonhado por ter sido pego espiando aquele novo pedaço da minha vida.
Naquela noite, eu queria ter dado a ele uma chance. Depois de tantos relacionamentos errados, parecia ideal alguém que me fizesse sentir desejada. E quando a banda anuncia a nossa música não consigo deixar de olhar para trás e encontrar o olhar dele, e dessa vez, eu entendo a pergunta que está ali. Quando ele passa os dedos pelo cabelo loiro e suspira para o teto, eu também entendo que o passado talvez não devesse ter sido reaberto.
No caminho de casa, nos evitamos mutuamente no banco traseiro, encostamos a cabeça cada um em sua janela e ficamos submersos em nossos pensamentos, considerando e repassando tudo o que poderia ter sido e o que deveria ter sido.
Quando estacionamos na porta da sua casa, ele sai do carro sem coragem de me olhar nos olhos, digo um “boa noite” educado, e com tristeza percebo que estamos com o coração partido mais uma vez.