terça-feira, 27 de maio de 2014

Fastio


Buscou dentro de seus relacionamentos vazios, mas nada encontrou. Voltou a trás, tentou novamente com todos os homens de sua vida e nada. Afundava-se cada vez mais sem saber o que queria.  Funcionava como um relógio voltando, talvez porque já não soubesse mais como ir em frente. Ali era seguro e nada mais. 
Beijou João, José e Francisco. Quando cansava de João, pra Chico ia. Depois do Chico lá estava o Zé.  Passava por Chico de novo só para chegar até João. Vivia sob um tédio interminável com eles. Mas nunca se deu conta disso. 
Achava importante tentar de novo.  Era seu complexo de salvadora. Sempre tentou ajudar tudo o que via pela frente. Animaizinhos feridos, amigas de coração partido, eletrodomésticos quebrados. E era bem sucedida na maior parte das vezes.
Mas quando era sobre si, não sabia o que fazer. Achava maravilhosa a adrenalina de seus relacionamentos fadados ao fracasso. Era uma verdadeira montanha russa. Emocionante no começo, mas quanto mais tempo passava ali, mais entediada ficava.
Um dia conheceu Miguel, com quem teve conversas bobas e risadas fáceis. Viajou com ele para o campo por um final de semana. Ele lhe preparava jantares ao som de jazz.  Recitava trechos de Neruda e Jabor. Parecia saído de um filme. Então, conheceu um novo tipo de tédio. Decidiu que era bom demais para ela.

Voltou para o ciclo de Chico, Zé e João. Talvez, pensou ela, sua vida não era demasiadamente vazia. Na sua certidão não era Emma, mas já se sentia Bovary.